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Vida e obra de José Mojica Marins

Não tem como falar sobre o gênero do terror nacional sem falar deste profissional. Por isso, este post sobre a vida e obra de José Mojica Marins é uma pequena homenagem a ele!

Mojica nasceu em São Paulo em 1936 e desde muito cedo o cinema esteve presente em sua vida – ele sempre admirou Boris Karloff e Bela Lugosi.

Seu mundo quando criança resumia-se a filmes de terror e histórias em quadrinhos. Num dia de aniversário ele preferiu ganhar de seu pai uma câmera ao invés de uma bicicleta. Com a câmera fazia pequenos filmes, alugava os projetores e contava com a ajuda dos amigos para exibi-los em cidades vizinhas como Franca por exemplo (como não tinha som, eles mesmos iam narrando as aventuras).

Foi em 1948 que abriu a escola de atores Atlas, também conhecida, simplesmente como ‘escolinha do Mojica’ e sua primeira produtora, que se chamava Cinematográfica Atlas.

Passado alguns anos o diretor teve a chance de filmar A Sina do Aventureiro, onde conseguiu como sócio Augusto Cervantes, um amigo de longa data e Nilza, namorada de Cervantes que tinha uma grana pra investir no projeto. As gravações foram com lentes 75mm e tinha Mojica acompanhando a montagem o tempo inteiro. O filme ficou por muito tempo no Cine Coral e estourou em várias capitais, em especial Salvador e Porto Alegre.

Mas os padres foram totalmente contra e até proibiram os fieis de assisti-lo. Para amenizar esta crise, o diretor escreveu e dirigiu Meu Destino em Tuas Mãos que colocava padres e freiras como heróis (uma observação é que na sequencia final, Mojica ficou dependurado no alto de uma torre de igreja apenas com uma corda). O disco de vinil com as músicas fizeram grande sucesso e foram lançados pela gravadora Copacabana. Meus Destino em Tuas Mãos ficou em cartaz por apenas duas semanas e não agradou o público.

Tempos depois foi convidado para atuar em O Diabo de Vila Velha. Ody Fraga, o diretor, parecia sempre confuso e as filmagens ficaram tensas por conta de desentendimentos, dos atrasos e estouro no orçamento. Ody foi mandado embora e Mojica terminou na cadeira de direção.

Numa noite por volta de 1962 ou 63, ele teve um pesadelo horrível onde um vulto o arrastava para um cemitério e a lápide com o ano de nascimento e morte. Dali surgia o agente funerário Josefel Zanatas (ou Satanás lido de trás para frente). Com a história criada, Mojica foi atrás da grana, mas nem as emissoras nem o teatro toparam sua ideia.

A Sina do Aventureiro seria relançado e, novamente, faria muito sucesso e dali começaria uma amizade com um certo cubano chamado Augusto Cervantes, que estava no ramo de filmes pornôs. Com o dinheiro investido, foi questão de tempo para À Meia Noite Levarei a sua Alma render uma bela quantia.

Cervantes voltaria a trabalhar com Mojica após alguns desentendimentos em Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver. O projeto incluiu mais figurantes e melhores cenários além do dobro do orçamento. Com atrasos nas filmagens e novos desafetos, foi mais complicado do que parecia terminar as gravações.

Vida e obra de José Mojica Marins

Para colocar dinheiro em casa, aceitou trabalhar na TV Tupi num programa dirigido por Antônio Abujamra e neste meio tempo conheceu Luchetti, um fã de seu trabalho e adorador de filmes de terror. Foi ele, por intermédio de Mojica, que adaptou três histórias para a televisão: Procissão dos Mortos, O Acordo e Pesadelo Macabro. Mas sua maior contribuição foi ter escrito alguns capítulos para O Estranho Mundo de Zé do Caixão e quem bancava tudo era George Serkeis, um árabe cheio do dinheiro.

Mesmo com excelente distribuição, Mojica descobre que Augusto Cervantes (distribuidor) pegou o dinheiro e investiu no fracasso de bilheteria Meu Nome é Tonho.

Na sequencia fez O Despertar da Besta – com orçamento irrisório –, criando o personagem Oaxiac Odez (Zé do Caixão lido ao contrário), para protestar contra a violência e as drogas (todos os envolvidos entraram no projeto pela amizade, pois não houve pagamento) e a música Guerra foi condenada pela ditadura e os envolvidos tiveram muita dor de cabeça para explicar que não havia nada demais naquela letra.

No início da década de 70 trouxeram uma proposta para que Mojica dirigisse e atuasse numa fita completamente diferente de tudo. O resultado foi Finis Hominis – inicialmente teria 3 horas de duração – e contou com Roberto Leme como montador e Nilcemar Leyart como seu assistente. Na época do lançamento, alguns críticos chegaram a dizer que seu novo projeto estava anos-luz à frente de seu tempo.

Em 1972 estreia Quando os Deuses Adormecem, onde Mojica busca nas favelas a inspiração para seu roteiro e D’Gajão Mata para Vingar que, num primeiro momento, não teria o senhor das unhas grandes como diretor, pois o produtor do filme, Augusto Cervantes, decidiu não escolhê-lo. Cleiton Vilela comandou o projeto mas logo estouraria o orçamento. Cervantes voltou atrás, chamou Mojica para terminar as gravações e recebeu um não. Tentou outra vez e por conta da situação financeira precária (não tinha dinheiro para pagar o enterro do pai) Mojica aceitou. Nenhuma cena de Vilela foi utilizada e a crítica adorou o bangue bangue desenfreado de D’Gajão.

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Cervantes iria se equivocar uma segunda vez e chamou Egydio Eccio e não nosso mestre do terror para dirigir A Virgem e o Machão. A salvação veio pelas mãos… adivinha de quem?, que o transformou em outro sucesso, principalmente em São Paulo.

Com O Exorcista chegando aos cinemas nacionais, o produtor Aníbal Massaini convidou o diretor para trabalhar em Exorcismo Negro em tempo recorde. Em uma semana o roteiro estava pronto e o elenco, lotado de figuras globais, havia sido escolhido. O terror foi bem nas bilheterias, mesmo não ficando muito em cartaz.

A Estranha Hospedaria dos Prazeres seria seu próximo projeto. Deu os créditos da direção para um dos alunos da escola, chamado Marcelo Motta, mesmo tendo problemas com Motta e a namorada dele.

Em 1977 foi a vez de Inferno Carnal aparecer nos cinemas nacionais. As críticas foram positivas mas a divulgação foi péssima.

José Mojica também flertou com os curtas metragens apresentando 5 projetos, mas negociando apenas Evolução, com cenas gravadas no antigo Mappin e no Viaduto do Chá e A Imigrante. Naquela época os curtas eram apresentados antes dos longas metragens e tinham 5% das bilheterias.

Um ano depois e O Despertar da Besta ainda estava com problemas por conta da censura. Mas, com um toque de gênio, pegou os cortes não utilizados dos seus próprios filmes e montou Delírios de um Anormal em quatro dias.

O média metragem Demônio e Maravilhas era para ser lançado nos cinemas, mas Goffredo Telles pediu a fita o mais rápido possível e conseguiu financiamento na EmbraFilmes (algo que Mojica jamais havia conseguido, mesmo com suas inúmeras tentativas).

Voltando aos longa metragens, Estupro! (seu primeiro título foi ‘Perversão’) teve um roteiro baseado numa história real. Depois de finalizado foram feitos cartazes, trailers e todo anúncio, mas a censura proibiu seu lançamento.

Vida e obra de José Mojica Marins

Com a profusão da pornochanchada e dos filmes eróticos, não demorou muito para os produtores investirem nele para este gênero. Mário Lima prometeu que se Mojica fizesse A 5ª Dimensão do Sexo, financiaria Encarnação do Demônio e no filme erótico em questão havia uma homenagem ao amor homossexual e pela primeira vez era mostrado dois homens se beijando. Agradou em cheio ao público gay e ficou cerca de 3 semanas em cartaz.

O segundo projeto com Mário Lima foi 24 Horas de Sexo Explícito – há uma cena inusitada em que um pênis conversa com uma vagina. Por fim, o produtor não cumpriu nada do que havia prometido e o final da trilogia de Zé do Caixão ficava cada vez mais distante.

Mas depois de muitas brigas, diversos roteiros escritos e reescritos, produtores que morreram antes de fechar os contratos e etc., Paulo Sacramento e Dennilson Ramalho entraram na jogada. Uma modificada aqui e outra ali, pois o tal roteiro estava um tanto defasado, a criação de storyboards e a morte de Jece Valadão, que novamente, quase colocou tudo a perder e eis que Encarnação do Demônio finalmente sairia em 2008.

A sinopse mostra o coveiro saindo da cadeia após 30 anos e tentando encontrar a mulher que iria gerar o filho perfeito. É um homem fora de seu tempo, tendo que se readaptar a uma São Paulo sádica e caótica.

Como ator ainda participou de projetos menores como Filmefobia, O Fim da Picada, A Capital dos Mortos e no ano passado fez o curta A Praga do Cinema Brasileiro. O IMDB cita que Dengue Alien está sendo filmado e contará com  Mojica, Rita Cadillac e Marcos de Castro.

Mesmo não tendo o impacto necessário para atingir o grande público, já escreveu seu nome na história do cinema nacional, algo que pouquíssimos tiveram o privilégio de fazer. E você, o que acha da vida e obra de José Mojica Marins?

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