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Joel Caetano, diretor nacional de filmes de terror

Joel Caetano, diretor nacional de projetos como Judas e O Gato, foi um dos primeiros a abrir espaço em sua agenda e conversar conosco – juntamente com Rodrigo Aragão, de Mangue Negro – na época em que o Cinema e Pipoca ainda era hospedado no blogger. Naquele período, Caetano estava empenhado na função de ator, agora passou para detrás das câmeras e conversou conosco sobre seus novos projetos.

Joel conta que dois filmes foram fundamentais para que o cinema virasse uma paixão e também moldasse o que se transformaria em sua profissão: “o primeiro filme que assisti no cinema foi “Labirinto – A Magia do tempo” de Jim Henson (1986). Aquilo me impactou tanto que no meio da sessão comecei a ver as criaturas do filme como se estivessem ao meu redor, foi uma experiência inesquecível. O segundo filme foi “Robocop – O Policial do Futuro”, de diretor Paul Verhoeven. Imaginem o choque que levei com tamanha violência gráfica. O mais interessante é que eu adorei aquilo, mas não entendia o porquê. Como achar divertido algo tão cruel? Isso diz muito sobre meus trabalhos, onde busco no grotesco e estranho a beleza e reflexão sobre diversos temas do nosso cotidiano”.

Joel Caetano, diretor nacional

Joel Caetano recebendo a maquiagem em A Noite do Chupacabras

Como um bom diretor de cinema independente, também expõe as dificuldades para filmar e tirar seus projetos do papel, pois “fazer cinema de terror no Brasil é tão difícil quanto realizar qualquer outro tipo de filme, com o agravante de ser um gênero que foi menos explorado no passado, o que gera uma certa desconfiança tanto nos investidores, quanto nos editais e principalmente no público. Esse aspecto também dificulta na hora de conseguirmos artistas para funções específicas, como maquiagem de efeitos por exemplo” e mesmo quando estava no cargo de ator, teve momentos bastante complicados, como em A noite do Chupacabras “por ser um filme independente de baixo orçamento, não tínhamos dublês, então rolou de tudo em cena: eu levei soco de verdade, coronhada na cara, cusparada, machuquei a perna em uma pedra, fiquei muito próximo de uma cobra de mais de um metro, fui amarrado, amordaçado e por aí vai”.

Abaixo você confere a entrevista completa:

Cinema e Pipoca: Como surgiu a ideia de ser um diretor de cinema e quais suas principais influências?

Joel Caetano: Primeiro gostaria de agradecer a oportunidade de falar sobre meu trabalho aqui no site Cinema e Pipoca que acompanho há muito tempo e por isso me sinto honrado de poder contribuir de alguma forma.

O primeiro contato que tive com histórias de terror/horror foi com meus avós na minha tenra infância. Como bons nordestinos que eram, adoravam contar “causos” reunindo os netos para narrar histórias sobre os ataques de Cangaceiros, Lobisomens, “Visagens” e do Papa-Figo (antiga lenda do folclore nordestino equivalente ao velho do saco). Isso de certa forma estimulou a minha imaginação e com certeza fazem parte do que me define como artista.

Passei também a escrever e desenhar meus próprios HQs influenciado pelos “gibis” que pegava emprestado do meu primo mais velho, desenhos animados e filmes da década de 1980. Naquela época as crianças podiam ver de tudo na TV (não estou julgando se era certo ou errado, mas era um fato), desde comédia adolescente sacana, passando por filmes violentos de ação, fantasia, épicos espaciais, aventura até chegar aos filmes de terror sangrentos/assustadores. Isso foi muito crucial para minha formação também.

Mais tarde, tive acesso a uma grande quantidade de filmes da coleção de VHS do meu cunhado (quem disse que eles não são úteis, os VHS é claro rs), aquilo foi um paraíso cinéfilo, mas ainda nem imaginava em me aventurar a fazer filmes. 

Joel Caetano, diretor nacional

Pôster de A Loira do Banheiro

Em 2000 decidi ingressar na faculdade e meu primeiro ímpeto foi fazer artes plásticas para retornar a minha velha paixão pelos quadrinhos, mas logo mudei, pois me encantei com as matérias do curso de audiovisual que reunia tudo que eu mais curtia: imagens, cores, sons e movimentos. Eu queria produzir logo no primeiro ano do curso e quando percebi que iria demorar um pouco (tem um monte de matérias teóricas nos dois primeiros anos) decidi montar com alguns amigos a RZP Filmes e nunca mais parei. Vale a pena ressaltar que estávamos no início da revolução do cinema digital onde podíamos experimentar muito sem se preocupar com o preço da película. Esse aspecto foi importantíssimo para o desenvolvimento de meu trabalho como diretor, roteirista e editor. Foi também o período que procurei assistir todo tipo de filme possível, criando um repertório que embora tenha base nos filmes que vi na infância, é muito mais amplo e traz possibilidades artísticas bem interessantes para meu trabalho.

CP: O processo de criação de uma produtora de filmes é muito penoso, principalmente por ser aqui no Brasil?

JC: Tudo que fazemos no Brasil é um pouco mais difícil. A desvalorização da arte vem crescendo exponencialmente a medida que nossa população está cada vez menos ciente da importância que isso tem em nossas vidas. Aqui não temos uma indústria, o que dificulta manter uma frequência de trabalho constante. Dito isso, prefiro não reclamar muito, pois independente de todas essas dificuldades continuamos resistindo, e esse é o papel do artista.

Já faço filmes há 17 anos (contando os da faculdade) e continuo na luta, como se estivesse começando agora. Nunca será fácil, depende de você decidir se quer isso em sua vida. Eu não sei viver sem cinema, aliás, não sei trabalhar em outra coisa, por isso faço o que posso para continuar.

CP: Seus curtas Judas e a Loira do Banheiro são tirados de lendas e costumes bem nacionais. Este seria um viés que os diretores nacionais poderiam utilizar melhor? Como surgiram as ideias destes 2 roteiros?

JC: Apesar do excelente trabalho do mestre José Mojica Marins, o Brasil não tinha muita tradição no Terror. Existem diversos filmes antigos do gênero, mas infelizmente não são muito conhecidos pelo grande público. De uns anos para cá, com a popularização das câmeras digitais criou-se uma cena independente bem interessante. 

Joel Caetano, diretor nacional

Joel Caetano ao lado de seu ídolo José Mojica

O que vejo hoje é um cinema independente com melhor qualidade técnica se voltando para temáticas ligadas a nossa cultura. É claro que não podemos fugir de certas convenções quando falamos de gênero, mas fico feliz quando vejo filmes nacionais que conseguem explorar isso para contar histórias genuinamente nossas.

Sou um eterno otimista, acho que estamos evoluindo e a boa qualidade desses filmes é que aos poucos vai quebrar o preconceito que ainda existe no cinema de gênero no Brasil.

Quanto aos filmes que dirigi, foram processos bem distintos. O Judas surgiu de uma memória de infância, pois quando criança, eu não podia brincar de malhar o Judas simplesmente por minha família não ser católica. Um dia, decidi fazer escondido meu próprio boneco, mas na hora de destruí-lo não vi muito sentido naquele ato de violência e desisti.

Muitos e muitos anos mais tarde, contando essa história para amigos em uma mesa de bar (melhor lugar para se ter ideias para filmes) me surgiu o ímpeto de transforma-la em um curta-metragem. A partir daí, peguei esse elemento do menino que constrói seu boneco de Judas escondido e mesclei a um drama familiar e social para compor a trama. O interessante que eu já tinha explorando temas relacionados a cultura brasileiros em meu filme Enconsto de 2013 (que pode ser visto no YouTube), onde um homem comete um erro ao executar um ritual de candomblé e acaba sendo perseguido por um espírito maligno. Penso em um dia fechar essa trilogia religiosa, agora explorando a religião cristã protestante, pois o Judas é sobre uma tradição católica.

A criação de “A Loira do Banheiro” foi bem diferente, partiu quase de uma encomenda do diretor geral do projeto “As Fábulas Negras”, o Rodrigo Aragão com quem trabalho desde 2010 (ano em que filmamos “A noite do Chupacabras”). Desde então já fizemos vários trabalhos juntos e quando ele decidiu realizar um longa-metragem de antologia, foi natural que eu estivesse entre os diretores convidados. “As Fábulas Negras” também tem histórias do próprio Rodrigo, Petter Baierstorf e o mestre José Mojica Marins, nosso eterno Zé do Caixão (com o qual trabalhei como assistente de direção em seu segmento, O Saci, uma grande honra diga-se de passagem).

Joel Caetano, diretor nacional

Pôster do curta Judas

Como eu sempre explorei histórias urbanas em locais fechados ou estúdio em meus curtas, o Rodrigo achou que seria interessante eu filmar a lenda da Loira do Banheiro. Foi um desafio interessante, visto que é uma das histórias que mais exploradas em curtas de terror que já vi. O que procurei fazer foi dar peso e verossimilhança no roteiro, atuação e ambientação na trama, inspirado em filmes de prisão feminina, terror italiano e principalmente Japonês, para compor um filme com uma lenda local, mas com um viés universal. O filme recebeu ótimas críticas também, e isso ajudou a consolidar meu nome no mercado.

“As fábulas negras” teve uma ótima repercussão, sendo exibido em grandes festivais pelo mundo e ganhando diversos prêmios como o de Melhor filme no júri-popular do Festival de Vitória, Melhor Direção no MAC Horror Fest, Melhor filme no Festival Boca do Inferno II (onde “A loira do Banheiro” levou também a menção honrosa de melhor segmento), Melhor Filme no POE – Festival Internacional de Cinema e Menção Especial de Melhor segmento para “A Loira do Banheiro” no Montevideo Fantástico onde também levou a Menção Especial de Melhor Maquiagem (Rodrigo Aragão).

O filme Judas ainda está no circuito de festivais, chegamos a incrível marca de 84 eventos em que o filme foi exibido em todo o mundo e 9 prêmios, já “As Fábulas Negras” pode ser visto no serviço de Streaming Itunes, Google Play, Vimeo e no Canal de TV paga SPACE.

CP: Como é fazer cinema de terror no país? Houve uma evolução de visibilidade e oportunidades para o gênero desde a época em que você começou até agora?

JC: Existem ótimos profissionais que fazem esse trabalho, mas não muitos, e na maioria das vezes em produções independentes temos que aprender a fazer de tudo um pouco para obter um bom resultado. A tradição de se contar essas histórias em uma obra audiovisual também depende de certos aspectos narrativos que ainda estamos aprendendo a realizar. Já temos grande obras nesse sentido, mas ainda temos um grade caminho a percorrer na minha opinião.

É claro que tudo isso vem melhorando e podemos ver cada vez mais produções como “O Caseiro” (2015), e “O Rastro” (2016) e agora o filme “Mata Negra” (2018) sendo feitos com editais e leis de incentivo, o que confere um acabamento muito mais profissional ao gênero, fator decisivo para se alcançar êxito nos festivais e salas comerciais.

Joel Caetano, diretor nacional

Cena do curta Encosto

A prova disso é o filme “Boas Maneiras” de Juliana Roja e Marco Dutra que esse ano ganhou o prêmio especial do Júri no prestigiado Festival de Cinema Locarno na França. Outro marco foi o lançamento ano passado de “Supermax” na Rede Globo. Quem iria imaginar no passado uma série de horror pesado nacional em um canal de TV aberto? Acredito que isso abra espaço para novas obras e movimenta a cena em geral.

O cinema independente também tem dado um ótimo salto com os longa-metragens do Paulo Biscaia, do Rodrigo Aragão, Marcos de Brito, Kapel Furman, Gurcius Gewdner, Peter Baiestorf e mais recentemente o “Mal Nosso” de Samuel Galli, ainda inédito no Brasil mas que vem fazendo bonito lá fora (que foi destaque no FrightFest na Inglaterra e ganhou o prêmio de Melhor Filme no Macabro Film Festival no México). Além disso, temos uma infinidade de diretores de curta-metragens que nem tenho como citar aqui, mas que estão fazendo um excelente trabalho pelo gênero.

Não podemos esquecer também o aumento de festivais de gênero no pais, como Fantaspoa, Rio Fantastik, Mostra Trash Goiania, POE – Festival Internacional de Cinema Fantástico, Cine Clube Toca o Terror, Horror Sombrio e Festival do Rio (Midnight), entre outros.

Eu acho que estamos no olho do furacão e aos poucos esses filmes vão conquistando o público brasileiro, que dado as bilheterias de filmes como “Annabelle” 2014 e “Invocação do Mal” I e II 2013 e 2016 respectivamente, adora filmes do gênero.

Joel Caetano, diretor nacional

Pôster de Fábulas Negras

CP: Além de dirigir seus curtas, você também atuou como ator em filmes como A noite do Chupacabras. É mais fácil estar atrás das câmeras ou à frente dela?

JC: São atividades muito diferentes, mas com o mesmo grau de dificuldade. Quando se está atuando, tem toda a pressão de se ter uma equipe inteira dependendo de seu desempenho, são entre 20 a 40 pessoas (dependendo da cena e da produção) que estão ali de certa forma avaliando seu trabalho. Há também o desgaste físico, principalmente em filmes de terror onde estamos o tempo todo correndo, lutando, apanhando e com o corpo todo coberto de sangue falso. Mas tudo acaba sendo uma diversão. Estar num set de um filme de terror, apesar de todo profissionalismo, é como voltar a ser criança brincando de faz de conta.

Já a direção é um mergulho intenso na história que se pretende contar. Temos que saber todos os aspectos do filme e existe tanta pressão ou mais da equipe no sentido de termos que ficar o tempo todo respondendo indagações sobre a produção para que o trabalho tenha um andamento satisfatório. O filme tem que estar muito claro em sua cabeça e isso só acontece se você fizer um processo de pré-produção muito intenso. No meu caso, como escrevo meus roteiros e desenho os storyboards, facilita um pouco.

Geralmente chego no set com tudo preparado, sem margem para erro. Por isso, quando acontecem mudanças no meio do caminho, (e isso vai acontecer, pode ter certeza) não sofro muito, pois sei exatamente o que preciso colocar na tela para que a história funcione. Dirigir é um cargo onde devemos o tempo todo tomar decisões, pois por mais que planejemos, as coisas sempre mudam, o importante é garantir a integridade da sua história.

CP: Tem novos projetos para o futuro? Poderia comentar um pouco sobre eles?

Joel Caetano, diretor nacional

Pôster de A Loira do Banheiro

JC: Esse ano ainda deve estrear meu novo curta-metragem Casulos, um projeto bem despretensioso que gravei no início do ano antes de viajar para trabalhar no longa-metragem “Mata Negra” (do Rodrigo Aragão) e só editei agora. É um curta de ficção científica bem humorado filmado por apenas duas pessoas, a atriz Mariana Zani e eu.

Estou também escrevendo o roteiro para um longa que vai explorar o universo criado em meu curta-metragem Encosto. Será um filme de terror passado em uma comunidade carente envolvendo maldições, espíritos, violência, tráfico de drogas e um pouco de romance. Já fiz o argumento e estou bem empolgado com o resultado, mas é um filme maior e tem que ser feito com edital ou investimento privado. Tenho mais dois projetos de longa que ainda estão sendo desenvolvidos, um é ficção científica e o outro um drama com temática bizarra, mas ainda não posso falar muito deles.

E não acabou ainda (risos). Outro projeto de curta-metragem é o Arapuca que está inscrito em alguns editais. É um drama familiar entre pai e filho, bem denso, com toques de suspense e crueldade, mas não é um filme de terror. Vai ser interessante trabalhar com um drama depois de tanto tempo fazendo filmes de gênero.

E por fim, a RZP Filmes está com planos para os próximos meses de lançar algo na internet. Como ainda estamos trabalhando no conceito não posso revelar muito, mas pode ter certeza que quando estiver para acontecer avisaremos ao Cinema e Pipoca com exclusividade.

No mais, estamos por todo Brasil ministrando oficinas práticas de Cinema Independente, se houver interesse é só entrar em contato em nosso e-mail rzpfilmes@rzpfilmes.com ou acessar nosso site www.rzpfilmes.com.

Agradeço mais uma vez o espaço. Um grande abraço a todos.

Segue aqui alguns links para conferir mais o trabalho de Joel Caetano e da RZP Filmes:

Reel Joel Caetano: https://youtu.be/Nz3_ClKQLUI
Oficinas RZP FILMES: https://youtu.be/ARvDLW2qn2Y
 
Trailers
As Fábulas Negras (2015): https://youtu.be/wjUpaZ6uERo
A Noite do Chupacabras (2011): https://youtu.be/Kl37i38SVMY
 
Filmes Completos:
Making of Encosto (2013): https://youtu.be/pt1yEKGeSK4

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